

\o/ Gol do Corinthians !!!! Uhu !!!


É hoje o dia de entrar na faca. Ou melhor, no espeto, já que a cirurgia será por videolaparoscopia, aquela em que são feitos três furos na barriga: um para a câmera e outros dois para os instrumentos. Lá vou eu para o hospital com a tranquilidade disponível e aquela preocupação básica: "oh céus, ai de mim, um pobre ser humano às voltas com as deficiências que a biologia me legou".
Confesso que na consulta com o anestesista, há uma semana, levei alguns sustos. Ele falou algo como "é aplicado um anestésico que age no sistema nervoso central e um relaxante muscular. Com isso vc perde a capacidade de respirar". Não quis interromper a conscienciosa exposição do médico, mas, de repente, me peguei a imaginar como seria capaz de prender a respiração por mais de uma hora, mesmo estando desacordado. Seria o novo recorde mundial !!!!
Ele então me disse que eu seria ENTUBADO. Obviamente o anestesista estava duvidando da minha masculinidade... Descubro, em seguida, que o tal do tubo, felizmente, seria colocado na boca e ligado a uma máquina que me faria respirar. Ufa! Contudo nos "esclarecimentos finais" ainda: "caso haja alguma dificuldade de entubar, pode haver danos aos dentes, talvez quebrar algum deles..." Francamente, o médico devia poupar os pacientes de alguns detalhes.
Pois bem, chego ao hosptital às 7:00 hs, para uma cirurgia marcada para as 11:00 hs. Não acontece nada até às 10:30, quando entra um enfermeira, mede a pressão e a temperatura, me dá um avental prá vestir e vai-se embora. Mais uns 10 minutos e vem o maqueiro, apressado, pede prá eu pular na maca e arranca em direção ao centro cirúrgico, falando que tem que correr pq está faltando maqueiro.
O centro cirúrgico me lembrou uma cozinha de restaurante. Gente entrando e saindo das salas de cirurgia, lavando as mãos (eles lavam os braços também) e um barulho de pratos e talheres, que na verdade eram os intrumentos.
O anestesista me pergunta mais uma vez se sou alérgico a alguma coisa e eu respondo a mesma coisa de sempre: "não que eu saiba". Aí começa aquela encenação básica: um médico fala comigo, me pergunta no que eu trabalho, enquanto outro espeta uma agulha na veia. Respondo: "Sou fiscal da Receita Federal. Sei que os médicos não gostam dos fiscais (nem fiscal gosta de fiscal), mas que não pensem em se vingar em mim hehe" E eles então começam a falar da declaração do Imposto de Renda, enquanto eu penso que, por mais profissionalismo que se espere de alguém, aquele realmente não era o momento ideal para prestar informações sobre o assunto.
Mais uns segundos sinto um pequeno formigamneto no ombro e apago. Acordo duas horas mais tarde. A única coisa diferente de acordar de um sono comum foi a pomada nos olhos e os três furos na barriga. Prontinho !!! Simples e rápido !!! Sobretudo depois que já passou. Como diz o velho ditado, "nada a temer, a não ser o próprio medo".
Tente imaginar quantas vezes eu tive que ouvir: "você não come, por isso está magro assim" ???? Ora, francamente, meu IMC está em 20,5. A falta de peso só seria um problema de saúde se meu IMC estivesse abaixo de 17.
Contudo, estes argumentos objetivos não a convenceram... ela continua pensando que estou magro e eu não entendo o porquê disso: 63 kg me parece um peso bastante razoável. E, pior, sem nenhuma prova científica que apóie seu ponto de vista, crê que a suposta magreza é consequência do meu saudável hábito de fazer apenas uma refeição completa por dia.
Tudo, porém, tem seu lado positivo: hoje acordei com o primeiro café da manhã já visto (e comido) naquele apartamento desde que me mudei prá lá!!!!!
Subitamente compreendi: minha geladeira enfrenta uma crise existencial ! Não enxerga um propósito para o eterno ligar e desligar de seu compressor, para a circulação dos fluidos, as paredes grossas, as limpas prateleiras envidraçadas, o frezzer potente, os compartimentos elegantes e ergonômicos, a lâmpada oculta que se acende a cada abrir de portas e a tecnologia que lhe permite fazer frio sem fazer gelo.
Tudo pronto e tudo parado. Com a respiração suspensa -- tal qual milhares de pessoas num estádio lotado à espera da cobrança de um pênalti marcado aos 47 minutos do segundo tempo -- aguarda após o raiar de cada dia que algo indefinível e desconhecido finalmente aconteça.
Há, por vezes, aquele corpo humano que abre a porta e debruça-se à sua frente. Com orelhas maiores que os olhos, mira curioso o seu interior por sobre os aros dos óculos, como se olhasse para uma paisagem distante, uma pradaria sob geada ou uma montanha semi-envolta em neblina. Contudo, este parece nunca encontrar o que deseja. Fecha a porta sem outro gesto que lhe permita adivinhar o que veio fazer ali.
Mais uma noite e mais um dia. Quem sabe amanhã...
É preciso encontrar uma solução terapêutica para o problema da geladeira !!!!

"Oi Amor, tudo bem com você? E as crianças? Comigo tudo bem, estou morrendo de saudades. A propósito, você sabe como foi o jogo do Palmeiras e São Paulo ? "
E lá estava ele, o azulado último lodge, no Annapurna Base Camp, 4.130 m, ponto mais alto do nosso caminho. Gritos, beijos, lágrimas, fotos, brindes, comemorações, sorrisos, gargalhadas, abraços de todo jeito, de todo tamanho, com vários sentidos e direções, com significados grandes e pequenos. Os felizes conquistadores entregaram-se a prazerosa conversa, rememorando cada passo da viagem.

Outro detalhe interessante é a vegetação, com muitas árvores por quase todo o caminho, que só desapareceriam acima dos 3.000 m. Nos primeiros dias caminhamos por entre a “floresta florida” dos rododendros.
Neste ponto a vedação ao consumo de bebidas alcoólicas fora reduzida a pó-de-traque e o núcleo empresarial do grupo já pensava em projetar e executar a construção de um geloduto trans-himalaico, pois a cerveja não era servida a temperaturas que apetecessem ao paladar dos consumidores mais exigentes.
Chhomrong impressionou por possuir máquina de lavar roupas e por sua longa, muito longa, mas muito longa mesmo, descida que, naturalmente, transformar-se-ia em subida no retorno. Tal assunto dominou a conversa por cinco dias (justamente quando a discussão sobre a técnica mais apurada de manejar os sticks perdera força) e só terminou no retorno, quando nosso destino converteu-se em realidade e, ali, na base montanha, atravessando a pequena ponte estendida sobre o rio que por milênios cavara aquele canyon, expiamos todos os pecados ainda restantes em nossas biografias.
Como já era de costume, saímos do alto de Chhomrong (o vilarejo ocupa quase toda a longa encosta), a 2.170 m, fomos até o fundo do canyon, a uns 1.300 m, e depois subimos a Kuldhigar, 2.540 m, antes de chegar a Bamboo, 2.310 m, onde dormimos. Percebemos que a moleza havia acabado!
Roberto “Papa-Léguas”, mestre na arte de manejar duplos sticks, ainda não havia pronunciado dez palavras desde que deixáramos o Brasil. Bocejou longamente, olhando ao infinito e além, como se pensasse aliviado: “finalmente um pouco de exercício, esta trilha já está me dando sono”.
Dali prá frente foi só subida mesmo, praticamente sem nenhuma descidinha que pudesse alegrar o coração. Próxima parada: Deurali, 3.230 m, onde, pela primeira vez houve uma gazeta quase unânime do banho diário. Para tanto contribuíram alguns fatores: o frio e uma chuva de granizo desaconselhavam perambular ao ar livre. E, mais que tudo, a Tiffany havia se adiantado ao nosso grupo, não mais fazendo sentido nosso esforço de melhoria estético-higiênica.
E nem suspeitávamos que o grande momento da viagem estava prestes a acontecer. Ali conhecemos Tiffany !!!! Foi como se a lua estivesse diante de mim a refletir a luz do sol. Canadense, alta, loira, coxas fortes, busto proemimente, olhar firme, lábios doces, andar balouçante a um só tempo determinado e gracioso, simpática, culta, independente, moderna, desembaraçada, viajada e que, ademais, falava fluentemente inglês. Provocaria um incontornável cisma no grupo, pois as moças não se conformaram com a atenção que nós, educados cavalheiros que somos, dedicávamos àquele anjo sem asas colocado em nosso meio por intervenção divina.

“Tikhedhungga / Ghorepani
A partir de Tikhedhunga a trilha segue
bastante acentuada com destino a Ulleri, um vilarejo sherpa a 2070 mts. A partir
daí a subida fica mais amena e com belos visuais da floresta de Rhododendron,
passando pelos vilarejos de Bahunthanti e Nayathanti. Mais algumas horas de
caminhada e chegaremos em Ghorepani, nosso destino final de hoje.”